Tubarões e raias ameaçados de extinção são consumidos no Brasil

Ana Paula Scorsin Vendidos como cação, as duas espécies estão em declínio Tubarões e raias que estão sob ameaça de extinção têm sido consumidos amplamente no mercado brasileiro. Comercializados pelo nome de cação, mais de 16 espécies de tubarões e raias foram encontradas em pontos de venda do Sul do país, região que possui uma […]

Em 29/10 de 2016

Ana Paula Scorsin

Vendidos como cação, as duas espécies estão em declínio

Sphyrna lewini localizado em Tramandai´ (RS) | Foto: Rodrigo Machado/Fundação Grupo Boticário

Sphyrna lewini localizado em Tramandai´ (RS) | Foto: Rodrigo Machado/Fundação Grupo Boticário

Tubarões e raias que estão sob ameaça de extinção têm sido consumidos amplamente no mercado brasileiro. Comercializados pelo nome de cação, mais de 16 espécies de tubarões e raias foram encontradas em pontos de venda do Sul do país, região que possui uma das maiores indústrias pesqueiras do Brasil. Dentre elas, destaca-se a raia-viola (Squatina occulta), considerada criticamente ameaçada e o tubarão-martelo-entalhado (Sphyrna lewini), classificado como vulnerável.

O alerta foi divulgado pelo pesquisador da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Victor Hugo Valiati, cujo trabalho tem apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Valiati afirma que a diversidade de espécies sob o nome de cação superou a expectativa do estudo. Para chegar a esses dados foram visitados 15 pontos de venda em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, entre 2012 e 2013.

Para a identificação das espécies foi utilizada uma ferramenta denominada “código de barras de DNA” que permite, a partir das informações contidas no material genético individual, afirmar de qual espécie se trata. Essa estratégia é necessária porque alguns pescadores, para fugir da fiscalização, jogam fora as partes que identificam a espécies, como cabeça e barbatanas, vendendo os ”peixes” já em filés. “Com essa tecnologia em mãos é possível, com apenas uma pequena amostra do animal, ou mesmo um fragmento do filé de pescado comercializado, identificar rapidamente de qual espécie se trata”, comenta. A ferramenta também permite controlar a pesca de cada espécie individualmente.

Em estado vulnerável de ameaça, o tubarão-martelo-entalhado é considerado o mais pescado no Brasil. Na pesquisa ele ocupa o primeiro lugar, aparecendo em 23% das amostras. A segunda espécie mais presente é o tubarão-azul (Prionace glauca), com 13% de presença.

De acordo com a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes, a iniciativa “faz com que os olhares se voltem para uma questão que pouco tem sido discutida, mas que poderá ter grande impacto no equilíbrio do ambiente marinho: a redução drástica das populações de tubarões e raias”, afirma. Além disso, segundo a diretora, o projeto oferece ao consumidor informações relevantes sobre o que ele está comprando.

Predadores sensíveis
Os tubarões são animais que estão no topo da cadeia alimentar dos oceanos. Por serem predadores por excelência, contribuem para o equilíbrio das populações das espécies que são suas presas. São animais de grande porte desde o nascimento, o que reduziu, ao longo da evolução, sua predação. Isso significa dizer que a pesca predatória, que retira milhares de toneladas ao ano de tubarões, tem enorme impacto ambiental. “Retirá-los do ecossistema marinho causará grande desequilíbrio nos oceanos, gerando, por exemplo, a superpopulação de espécies comumente predadas que, por sua vez, pode impactar a vida das comunidades ribeirinhas e o comércio pesqueiro, por exemplo”, destaca o pesquisador. “Não há como ter certeza do que acontece com a retirada de um predador de topo de cadeia, mas, com certeza, as consequências são catastróficas tanto em termos de biodiversidade como econômicas, e é melhor não pagar para ver.”

Já as raias correm risco ainda maior, pois têm sido facilmente capturadas pela pesca artesanal com arrastão de praia e industrial. O declínio populacional está associado à elevada mortandade das fêmeas prenhes, facilmente capturadas nestes locais. Além disso, a pesca indiscriminada pode afetar o tamanho das fêmeas e, consequentemente, o número de filhotes a cada gestação. “Isso tem interferido no tamanho e quanto menor elas forem, menos filhotes conseguem gestar de cada vez, afetando diretamente o número de indivíduos das populações”, conclui Valiati.

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