Brasileiras são vítimas de tráfico internacional de órgãos na Venezuela

Autópsias realizadas no Brasil apontam falta de órgãos. Segundo familiares das vítimas, os “corpos chegam mutilados e internamente ‘ocos’” A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica denunciou na última semana casos ocorridos em Roraima e Amazonas como suspeitos de vinculação com tráfico internacional de órgãos. As denúncias foram encaminhadas em caráter de urgência pela SBCP ao […]

Em 06/10 de 2016

Autópsias realizadas no Brasil apontam falta de órgãos. Segundo familiares das vítimas, os “corpos chegam mutilados e internamente ‘ocos’”

brasileiras-sao-vitimas-de-trafico-internacional-de-orgaos-na-venezuela-01A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica denunciou na última semana casos ocorridos em Roraima e Amazonas como suspeitos de vinculação com tráfico internacional de órgãos. As denúncias foram encaminhadas em caráter de urgência pela SBCP ao Procurador Geral da República, Ministério da Justiça, Ministério das Relações Exteriores e Superintendência da Polícia Federal. Antes mesmo dos casos da última semana, já havia uma denúncia em segredo de justiça no Ministério Público do Amazonas, protocolada pela SBCP. “Mas agora a situação está insustentável. Necessitamos envolver o governo e tomar medidas imediatas. Já estamos contatando o Ministro da Justiça para uma audiência. Entre as medidas vamos propor o fechamento da fronteira para as mulheres que saírem para fazer cirurgias plásticas no país vizinho, além de prisão das pessoas que fazem esse aliciamento”, explica Chaves.

Não é incomum o recebimento de relatos na SBCP sobre casos de brasileiras que viajam para a Venezuela para realizar procedimentos estéticos e de lá retornam com sérias complicações de saúde causadas por erros médicos, imperícia ou falta de estrutura necessária para realização dos procedimentos e para o atendimento de intercorrências. Há pacientes que foram operadas em quartos de hotel. Outras que cujos procedimentos geram problemas irreparáveis na saúde ou na estética da paciente.

No entanto, na última semana a situação pirou drasticamente. Ocorreram três mortes de brasileiras após procedimentos estéticos na Venezuela. E pior, dois deles com fortes indícios de relação quadrilhas do tráfico internacional de órgãos.

Ambas faziam parte de uma mesma “excursão” do chamado “turismo da beleza” e viajaram juntas com outras brasileiras a cidade venezuelana de Puerto Ordaz. Complicações no pós-operatório fizeram que retornassem ao centro cirúrgico da clínica, onde acabaram vindo a óbito. Quando os corpos retornaram chegaram ao Brasil, o Instituto Médico Legal constatou a falta de órgãos internos.

Em 13 de setembro, o corpo da paraense Dioneide Leite, de 36 anos, que morreu após uma perfuração no pulmão em decorrência de erro médico durante uma cirurgia de redução mamária, chegou ao Brasil sem os rins, segundo Arcoverde.

CLÍNICA DA MORTE
Adelaide da Silva, 55 anos, foi com a mãe para Puerto Ordaz na sexta-feira, 16 e para colocar implante de silicone nos seios, fazer uma abdominoplastia e uma lipoaspiração. As cirurgias foram realizadas no sábado, 17, pela manhã. Ela ficou internada na clínica e morreu na tarde de domingo, dia 18. A sobrinha da vítima afirmou que a clínica era pequena e que não havia estrutura suficiente para a cirurgia.

Após passar mal, Adelaide não foi transferida para uma UTI, mas ficou constantemente sob a supervisão do médico responsável, Oscar Hurtado. A família estranhou o fato. Outro fato estranho para a família, é que, após declarada a morte de Adelaide, o médico comunicou que o embalsamamento não seria permitido no país e que para a transferir o corpo a família deveria pagar um valor em torno de R$ 60mil. As opções sem custo para a família, dadas pelo médico foram a cremação ou o enterro na própria Venezuela.

Durante a autópsia no IML de Boa Vista (Roraima), foi detectada a falta do coração, pulmões, rins e intestinos durante a autopsia. Além disso, o IML identificou a colocação indevida de formol no corpo, artifício geralmente utilizado para dificultar a autópsia. A família já registrou boletim de ocorrência e entrará com ação junto ao Ministério Público.

Segundo a presidente da Sociedade Venezuelana de Cirurgia Plástica, Linda Lorena Rincón, Oscar Hurtado não possui formação em cirurgia plástica e sim em oncologia. “Lamentavelmente estamos sendo vítimas de um desprestígio da especialidade por parte de pessoas que não são cirurgiões plásticos”, disse.

ISCA PARA AS VÍTIMAS
O chamado “turismo da beleza” acontece há anos no Amazonas e Roraima. Grupos são formados em redes sociais convidando mulheres para realizarem cirurgias plásticas no país vizinho a preços mais baixos. Fotos e depoimentos de mulheres que supostamente fizeram cirurgias na Venezuela e relatam resultados positivos são apresentados nesses grupos. Iludidas pelas propagandas enganosas as brasileiras partem em busca da aparência perfeita no país vizinho, muitas voltam com sequelas. Existem até relatos de pacientes que voltaram e ao realizar exames, os médicos informaram a falta de algum órgão. Muitas mortes têm sido relatadas nos últimos três anos.

“Não sabemos exatamente em que condições de infraestrutura de clínicas e hospitais essas pacientes são submetidas e, sobretudo, elas voltam ao Brasil sem nenhuma assistência médica” explica Luciano Chaves.

Ainda não há comprovação, mas os indícios de relação com o tráfico internacional de órgãos são bastante robustos. Também não há clareza sobre a forma de atuação da quadrilha, mas há suspeitas de que as cirurgias plásticas a preços extremamente baratos possam estar sendo subsidiadas pelas receitas advindas do tráfico de órgãos e servindo como um chamariz para atração das vítimas. “Nós conseguimos captar informações suficientes para demonstrar para o Ministério das Relações Exteriores, para o Ministério da Justiça e todos os órgãos legais que algo errado acontece naquele país”, explica o coordenador jurídico da SBCP, Carlos Michaelis Júnior.

Antes mesmo das mortes e das denúncias sobre o tráfico de órgãos, a SBCP já estava atuando em conjunto com a Regional do Amazonas contra o “turismo da beleza”. Em abril deste ano, Luciano Chaves e Carlos Michaelis Júnior, foram a Manaus e protocolaram denúncia no Ministério Público.

Delegado da SBCP em Roraima, o cirurgião plástico Marcos Arcoverde acompanha as investigações e diz que as denúncias sobre cirurgias plásticas feitas de maneira irregular na Venezuela acontecem desde 2013. “Temos denúncias no Conselho Regional de Medicina, Secretaria de Saúde do Estado e Ministério Público, mas até agora nada foi feito. As instituições alegaram não haver denúncias de pacientes que comprovassem as denúncias. Mesmo com dois óbitos em uma semana e outra paciente à beira da morte em Caracas”, informa. Segundo o delegado da Polícia Federal em Roraima Alan Robinson, “Será levantado na Venezuela, o que motivou essa possível retirada desses órgãos dessas brasileiras que foram vitimadas nessas cirurgias”.

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