O Bajulador e a Política

Eles têm um prazer enorme em serem incensados à categoria de estrategistas políticos

Em 21/05 de 2020

Por Gerson Leite de Moraes, doutor em Filosofia e professor do curso de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie | Imagem destaque reprodução News Rondônia

Nero Cláudio César, imperador romano, foi um crápula. Ele nasceu de uma família complicada, assim que veio ao mundo, seu pai biológico sentenciou aos amigos que lhe felicitavam, dizendo, que “dele e sua esposa Agripina, não poderia nascer nada que não fosse detestável e funesto ao bem público”. De fato, assim a vida de Nero se desenvolveu. Após a morte de seu pai chamado Domício, foi adotado pelo imperador Cláudio, quando tinha doze anos. Aos dezessete, participou do envenenamento daquele que o acolheu e tomou-lhe o trono, tornando-se o novo imperador. Casou-se três vezes, matou as três esposas, bem como matou seu meio-irmão e sua mãe.

Megalomaníaco, chamou ao mês de abril, “o mês de Nero” e projetou também substituir “Roma” por “Nerópolis”. Inicialmente adotou uma política populista, incentivava jogos, distribuía presentes e vales para aquisição de trigo, roupas, ouro, prata, pérolas e escravos, mas depois de quatorze anos de governo tudo começou a mudar.

Demonstrando descontentamento com a feiura dos antigos edifícios, com a estreiteza e tortuosidade das ruas, mandou incendiar Roma, que ardeu por seis dias e noites seguidos. Também teve de enfrentar uma peste que, num único outono, matou mais de trinta mil romanos, com tudo isso, sua popularidade se esvaiu. Após uma revolta no exército, ficou isolado, teve que fugir, mas antes procurou seus “amigos bajuladores”, mas ninguém o atendeu. Ele, então, desejou a morte, e como seus inimigos ainda estivessem longe, lamentou dizendo que naquele momento não tinha “nem amigo e nem inimigo” para auxiliá-lo em seu projeto de pôr cabo à vida. Veio a falecer pouco tempo depois, com trinta e dois anos, e o povo de Roma, ostentando o gosto da liberdade, corria de um lado para o outro da cidade, festejando a morte do lunático tirano.

O fim de Nero é exemplar e lapidar, pois as trajetórias dos tiranos parecem seguir sempre um roteiro muito semelhante, inicialmente amados e, no final de seus governos, odiados.

Além do desequilíbrio mental, típico dos ditadores populistas, outra coisa chama a atenção e parece ser comum entre eles, a saber, o fato de que amam se cercarem de bajuladores. Eles têm um prazer enorme em serem incensados à categoria de estrategistas políticos, de líderes essenciais e brilhantes que precisam lutar em nome da pátria e do bem comum, contra os inimigos reais ou imaginários. Não há adversários políticos ou ideológicos, mas sim, inimigos que precisam ser eliminados a qualquer custo. A claque de bajuladores infla seus egos, alimenta seus sonhos mais macabros e os estimula a serem cada vez mais descolados da realidade. Eles vivem numa bolha, num mundo paralelo, onde todos, líder e liderados, alimentados pela cultura da lisonja e do peleguismo, são programados para dizer “sim” a todas as sandices do líder da caterva.

Plutarco diz que “a varejeira agarra-se às orelhas dos touros, e o carrapato às dos cachorros. Assim, o bajulador, ao deleitar com elogios as orelhas daqueles que amam a glória, fica-lhes de tal maneira ligado, que eles não podem mais separar-se”. Os tiranos e os maus políticos, que são projetos de ditadores, no fundo, são seres fracos moralmente, por isso, precisam tanto da presença dos bajuladores. Apesar de fracos, são perpetradores do mal e é por isso que em qualquer regime que se preze, e que se qualifique como democrático, é fundamental o sistema de freios e contrapesos, que tem por finalidade corrigir os impulsos devassos dos tiranos e da súcia de bajuladores que o cerca. É fato que o poder embriaga, mas causa danos maiores ao sujeito de personalidade fraca, por isso, caro leitor, todo aquele que almeja entrar na política precisa seguir o conselho do velho Plutarco, já citado anteriormente. Ele diz: “É preciso arrancar do coração o amor-próprio e a boa opinião sobre nós próprios, pois estes são os nossos primeiros aduladores que, abrindo a porta aos bajuladores estranhos, tornam-nos presas fáceis de seduzir. Se observarmos nossas palavras e nossos afetos, estaremos protegidos das armadilhas dos bajuladores”.

Caro leitor, quando você for avaliar um político, analise também quem o cerca, se forem bajuladores tenazes, evite o político em questão e seu bando, pois eles farão muito mal à nação.

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